medo é uma das emoções mais constantes e intensas experimentadas pela humanidade. é ligado a mecanismos instintivos de proteção contra o perigo, e seus efeitos manifestam-se diretamente em nosso corpo. comum a muitos animais, no ser humano ele é ainda intensificado pela consciência de nossa finitude e do caráter inexorável e insondável da morte. apesar de ser uma emoção negativa, quando experimentado ocasionalmente, o medo constitui-se como um efeito capaz de produzir peculiares prazeres estéticos...de que modo os terrores e horrores imaginários podem suscitar prazeres, se estamos sempre tentando escapar dos terrores e horrores do mundo real?...ver-se diante de uma experiência de terror ou de horror sem de fato correr os riscos inerentes a ela seria não apenas uma experiência prazerosa, mas, também, uma forma segura de encarar e enfrentar os diferentes medos aos quais estamos sujeitos. o exercício de nossos sentimentos de benevolência, quando provocados, pode ser uma fonte de prazer. tal fato não parece espantoso àqueles que consideram haver uma relação entre os sistemas moral e natural do ser humano, associando, assim, certo grau de satisfação a toda ação ou emoção responsável pelo bem-estar geral. o sofrimento que imediatamente surge de uma cena de miséria é suavizado e abrandado pelo nosso reflexo de auto aprovação, derivado do virtuoso sentimento de empatia. esse abrandamento ocorre de forma tão intensa, que experimentamos, geralmente, um prazer muito requintado e refinado, que, em vez de nos levar a fugir com nojo e horror de tais cenas, nos faz querer testemunhá-las novamente. é óbvio o quanto essa disposição pode nos conduzir aos fins de amparo e auxílio mútuos. mas o aparente deleite com o qual nos deparamos diante de objetos de puro terror, em que nossos sentimentos morais não têm vez, e nenhuma paixão, a não ser aquela deprimente do medo, parece ser excitada, constitui um paradoxo do coração, cuja solução é muito mais difícil. estratégias linguísticas e discursivas, na forma de narrativas, são produzidas para evitar que as pessoas compreendam o mundo e sua situação no mundo. no extremo, o controle da ideia de mundo visa ao controle do mundo como campo de experiência, o que só é possível pelo controle da linguagem, que seria capaz de analisar, conceber, questionar. em suma, de montar e desmontar algo como um “mundo” com base em uma ideia e na forma de narrar essa ideia. ao lado da linguagem verbal, a linguagem visual é dominante nas sociedades que compõem a civilização atual. portanto, devemos compreender “narrativa” como algo que cria um mundo organizado em palavras e imagens. esse mundo implica uma verdade verbovisual, discursivo-visual ou literário-visual coesa. o sistema simbólico atual instaura narrativas verbovisuais dominantes para definir todas as demais narrativas de maneira programática...e maravilhosa!

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